terça-feira, 6 de maio de 2008

Humores.

Ainda me surpreendo com a capacidade de superação humana. É fascinante como potencializamos ânsias, desejos e tudo nos parece tão imperioso. E é deveras frustrante o momento em que a pessoa se dá conta de que não passavam de humores.

Eu adoro pensar que tudo se explica pelos humores. Uma vez ouvi algo que esclareceu muitas dúvidas na minha vida. “Hiperativo, devassa! São humores.”. O humor que muda logo de manhã quando me vejo diante de uma cara desfigurada. Ou de chegar à própria casa dando-me conta de como fui covarde horas atrás. Existe uma escala de limites extremos. Você atribui os valores. Ela vai crescendo, alimentada por você, até atingir um ponto crítico. Nele você tem grande dificuldade em avaliar suas vontades. Fica confusa. Entende as coisas com pouca sensatez, embora se julgue um ser humano racional. Saído disso, enfrenta quedas consecutivas nos reflexos. Uma hora você já não somatiza aquelas informações. Elas te incomodam. Cansaram sua sensibilidade. Os humores agora estão estáveis. Sua voz já não muda diante do meio que se comunicava contigo. Já é capaz de provar das vivências com alguma integridade. Então se recobre de críticas e convence-se do quão vulnerável é. Sem grandes cobranças, afinal, concordamos que não há loucura no encantamento. A passionalidade é apenas um dos humores. E por que não pensar então na legitimidade das figuras magnéticas? Existe sem dúvidas uma projeção idealizada de si naquelas personagens. Goffman muito bem traduz as peripécias humanas como práticas deliberadas de representação, onde escondemos e expomos o que nos é conveniente. Representamos papéis o tempo inteiro, inclusive para nós mesmos. Quem nunca se vestiu ou portou para convencer que pertence a um ou outro grupo social? Hipocrisia negar a necessidade humana de se autoafirmar diante dos outros. O duro é aceitar que foi enganado e induzido a desejar um mero produto social, até o momento sem grande validade para sua vida ou de fato munido daquela aura fascinante que só as essências resguardam. Os humores? Mudam. E você, eu, como o sujeitos sociais que somos, acreditamos neles.

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