quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Do tamanho da paz.



CASA NO CAMPO
(Zé Rodrix/Tavito)

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão a pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Trânsito vs TPM.

Como não poderia deixar de ser, o trânsito em Teresópolis é tão insuportavelmente irritante quanto o de qualquer outra cidade com mais de 150 mil habitantes - com o agravante de, aqui, não rivalizarmos apenas com outros motoristas, mas, em especial, com os pedestres. É inacreditável a ousadia da maioria. Não existe na Serra aquela política de boa vizinhança, a velha gentileza de pararmos o carro para as senhorinhas simpáticas e grávidas atravessarem as ruas na faixa. As pessoas ignoram a velocidade do seu veículo e se atiram à rua pelo pressuposto óbvio (para mentes teresopolitanas) de que você vai frear ou atirar seu carro no poste para que ela conclua seu trajeto sem transtornos. E sequer aceleram o passo. Pelo contrário! Suspeito de que haja algum tipo perverso de prazer em te fazer aguardar possesso até que ponham os pés do outro lado da calçada. É revoltante para não nativos, como eu. É batata! Experimente estacionar o carro e conte quantas pessoas passarão à frente e por trás dele antes que termine o último movimento com o volante. Eles se regozijam da nossa ira.

Introdução feita, hoje me aconteceu algo bastante curioso. Na verdade, não fosse a minha busca constante por equilíbrio, o fim poderia ter sido bem trágico. Já passava das 21h quando decidi que iria até a padaria, a algumas quadras do meu prédio. Pois bem... Ao fazer um retorno, seguia em direção ao meu destino quando passo por um trecho sem iluminação e onde havia uma faixa. Apenas a faixa, observem. Sem sinalização eletrônica, indicando apenas ser aquele um local mais adequado para a travessia de pedestres. O comércio, pela hora, naturalmente, estava fechado. Fiz o meu retorno feliz e contente quando (adivinhem?) vejo já a no máximo 3 metros da faixa (portanto, distância fisicamente desaconselhável para acionar o freio) três típicos pedestres teresopolitanos aproximando-se da rua. Penso eu, em fração de segundos, “eles vão se apressar ou voltar”. É evidente que, considerando o cenário, pisar abruptamente no freio não seria a opção mais sensata. Seria gentileza demais (que, inclusive, gosto de fazer durante o dia e quando as pessoas aguardam por isso nas calçadas).

Adiantando o final da prosa, não houve feridos. Eles atravessaram sem a devida precaução, mas, milagrosamente, consegui passar entre os três, ouvindo à distância alguns maus chingamentos. Segui meu caminho, ainda perplexa e assustada, estacionei e comprei os pães. Retomando o caminho de casa, percebo um farol muito alto atrás de mim, que me seguia. Eis que à esquerda me aparece uma figura sinistra, como se um espírito sem luz tivesse se apossado dela, me fazendo apontamentos e esbravejando. Eu não entendi muito bem, mas logo supus que fosse uma das pedestres suicidas. Pois bem. Este carro me seguiu até bem perto da minha rua, quando decidi improvisar um trajeto. Seria imprudência permitir que uma desconhecida descompassada soubesse onde moro. A mulher, então, continuou gritando da janela, enquanto meus vidros estavam seguramente fechados, com o marido ao volante (um banana, por sinal), enquanto eu tentava despistá-los.  Quando sentiu que conseguiria me alcançar (tive que desacelerar num desses redutores de velocidade), a mulher  desceu do carro descontrolada. Naturalmente, ficou ainda mais quando se deu conta de que meu carro continuou andando. Ficou no meio da rua, feito uma louca, gritando aos ventos. Nesse momento, confesso que conheci um lado bem cruel da minha natureza... Entrei em uma rua próxima, ainda na tentativa de evitar que o pior acontecesse, mas, para a minha infelicidade, fui surpreendida por um sinal vermelho, onde fui moralmente coagida a parar. E não é que o casal ensandecido me encontrou?! Decidi, então, abrir o vidro para tentar dialogar e dar fim àquela perseguição, que já tinha passado dos limites e começava a me parecer perigosa. Com o carro parado, ela começou a socar o vidro e só não me atingiu em cheio porque segurei seu braço (embora a unha ou um anel tenha tocado o meu rosto, que ficou avermelhado por um tempo).

Ela estava completamente transtornada, tentando me agredir verbal e fisicamente, como se houvesse algum tipo de adendo na legislação de trânsito reservando aos teresopolitanos privilégio sobre os demais pedestres do país. Chega a ser cômico pensar no que acabou de acontecer. E o marido dessa criatura, cuja alma já havia sido consumida pelo capeta, não esboçava nenhuma reação. Apenas assistia e pronunciava, eventualmente, algumas palavras (na certa, envergonhado e com medo do que o aguardaria em casa caso a desautorizasse), tentando fazê-la voltar para o carro. Este tem lugar garantido no céu. Era um frouxo, mas um sujeito civilizado. Me desculpei com ele pelo ocorrido (mesmo sabendo que não havia cometido nenhuma infração e, a essa altura, já lamentando muito não ter atropelado aquela desequilibrada), ouvi mais alguns desaforos e parti com o carro para casa, ainda bastante indignada. O pior de tudo era saber que eu ainda teria que lidar com a frustração por não ter-lhe retribuído as bordoadas (mesmo sendo nulas as possibilidades de algo semelhante acontecer). Mas foi melhor assim. Certamente, agi com prudência. E tive sorte por estar sozinha. A noite não teria terminado ali se eu estivesse acompanhada por quem ficou em casa por preguiça. Santa racionalidade! E santo IPVA atrasado, que me acalmou ainda mais os ânimos. Suprimi a zero minha TPM! Estou frustrada e ainda bastante irritada, mas orgulhosa por ter passado bem por esse teste de autocontrole.

Mas que a fdpzinha merecia uns tapas de alguém... ah, merecia!