terça-feira, 29 de setembro de 2009

Sujeito-papel.

Como integrante de uma geração que aprendeu a produzir e se relacionar, ao menos parcialmente, com o auxílio de algum suporte tecnológico, soa quase criminoso assumir que ainda acredito que o livro não será substituído pelos e-books, que a arte não foi morta pelos abstracionistas, que a gentileza não sucumbiu ao individualismo etc.
Estou escrevendo esse post em uma folha de papel A4, com uma caneta bic (a melhor que existe). Embora tenha diminuído a frequência com que faço isso, adoro escrever cartas à mão. Deletar, copiar e colar são sem  dúvidas praticidades muito bem vindas, mas também incentivos a que abdiquemos dos prazeres e recompensas dos velhos métodos de escrita. Sou absolutamente adepta aos programas de edição de textos, especialmente para fins acadêmicos, mas ainda acredito na interação sujeito-papel. Tecnologia demais produz mentes fragmentadas e histéricas.

domingo, 27 de setembro de 2009

Laissez faire.


É sempre muito gostoso reencontrar pessoas queridas.
Ontem tive a oportunidade de rever velhas amigas e uma pessoinha muito especial. Gostoso estar diante de velhos hábitos, velhos sentimentos e perceber que a dor nos faz amadurecer. Que existe uma pulsão atuando sobre o desenrolar dos fatos. Por mais que a gente resista e insista em acreditar que tem a última palavra, há sempre uma força que te reconduz. É claro que isso não vale para tudo, porque é importante também requerer a responsabilidade pelas portas abertas e pelos riscos que assumimos a cada escolha. A verdade é que viver é um permanente exercício de sujeição. O tempo realmente desloca o nosso olhar sobre as coisas, mas é preciosa a experiência de encontrar intactas algumas sensações e provas. É "humanizante". Nos faz resgatar crenças, sem as quais nos tornamos um tanto amargos.
Arrogante pensar em controle. Acredito em intervenções de outra natureza. Sempre que me ponho atenta, me deparo com uma peça a mais se encaixando.
Não existe convicção ou teimosia que altere um fato reincidente. Ele, em sua forma e potência, não concebe vulnerabilidade circunstancial.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Kew Gardens.


"'Mas por que importaria, Simon? Não pensamos todos nós no passado, num jardim com homens e mulheres sob as árvores? Não são eles o nosso próprio passado, tudo o que resta dele, esses homens e mulheres, esses fantasmas que jazem sob as árvores... nossa felicidade, nossa realidade?'
'Para mim, uma fivela de sapato, quadrada e prateada, e um louva-a-deus...'
'Para mim, um beijo. Imagine seis mocinhas sentadas diante de seus cavaletes, há vinte anos, na beira de um lago, pintando nenúfares, os primeiros nenúfares vermelhos que eu via. E de repente um beijo, bem na minha nuca. Não pude mais pintar, porque fiquei a tarde toda com a mão tremendo. Peguei meu relógio e marquei a hora em que me permitiria pensar no beijo por somente cinco minutos - era tão precioso'"[...]

Wirgínia Wolf - Kew Gardens.