Não é novidade a presença da mulher na propaganda nacional de cervejas. Antarctica e Brahma foram duas das primeiras a utilizar esse artifício de venda, aliando o corpo, a expressividade feminina e alguns outros recursos semióticos a suas marcas. Nas primeiras décadas do século XX, em um contexto de “manutenção da virtude”, alguns anúncios serviram também como importantes reforços à construção de uma representação restrita à esfera doméstica.
Observa-se, portanto, um cenário conflituoso. Uma cultura que concebe a castração das liberdades individuais – pela conservação dos valores – e, ao mesmo tempo, a exposição de corpos femininos nos rótulos das garrafas e nos jornais. Segundo Foucault, as identidades são construídas no interior das relações de poder. Os discursos proferidos por meio de apropriações mercadológicas da imagem feminina reificam a manutenção de uma condição ainda suplementar em relação ao gênero oposto.
Na década de noventa, as campanhas publicitárias exploraram com maior liberdade a sensualidade feminina. Antarctica, Skol, Brahma, Kaiser, entre outras, mercantilizaram esses corpos, incitando especialmente o público adolescente (faixa etária intensamente estimulada por imagens) e reforçando o estereótipo de beleza branca, magra e jovem.
As agências de publicidade sempre associaram o gênero masculino ao público consumidor de cerveja, tomando a mulher como recurso de venda. Após manifestações lideradas por defensores dos direitos da mulher, algumas agências experimentaram caminhos alternativos para atrair a atenção e a fidelização do consumidor. Investiram na imagem de jogadores de futebol, bichos da fauna brasileira, bordões, mas sem sucesso. O que nos leva a crer na existência de um condicionamento masculino a elementos semióticos de apelo sexual. Signos que remetam ao prazer parecem ser o código de acesso das marcas ao seu público-alvo.
A Skol levou ao ar a cena de um casamento. O noivo, no altar, declara fidelidade à noiva caso esta mantenha a silhueta esbelta e não envelheça, como sua mãe (já uma senhora, acima do peso). Jura fidelidade incondicional apenas à cerveja. Um comercial simples e curto, contendo duas mensagens relevantes: reforço ao protótipo de beleza feminina – mulher branca, magra, jovem e de seios volumosos – e uma abordagem bem humorada da infidelidade masculina.
Ao longo dos mais de cem anos de propaganda no país, nota-se uma apropriação do corpo feminino com fins utilitários e discursos de incentivo à manutenção de um comportamento submisso. A incorporação destes conceitos tem forte efeito sobre o imaginário comum, em especial, sobre grupos sociais em fase de formação. O discurso envolve-se na constituição de todas as dimensões da estrutura social, moldando-o e restringindo-o. Ele é uma prática de representação e, principalmente, de significação do mundo. O não-dito, quando logrado por cenas de humor, é capaz de adquirir maior eficácia ideológica, pois torna leves e aparentemente inofensivas as mensagens veiculadas.
É preciso estar atento ao que a publicidade fornece em termos de representação. Sem extremismos, reconhecer o lugar do humor e da fantasia, educando o olhar. A crítica deve ser feita indiscriminadamente, sobretudo aos estímulos midiáticos, sejam eles imagens, slogans ou campanhas publicitárias que sugiram a que lugares pertence um determinado grupo social e de quem são as falas privilegiadas. A liberdade criativa deve ser preservada, mas assédio moral é crime. O sexismo é um ato de violência nem sempre visível e que se legitima pela falta de atenção dada ao poder dos signos de representação de gênero.
E é sempre bom lembrar...
Os artigos 19 e 20 do Código Brasileiro de Auto-Regulamentação Publicitária do CONAR prevêem, respectivamente:
“Toda atividade publicitária deve caracterizar-se pelo respeito à dignidade da pessoa humana, à intimidade do lar, ao interesse social, às instituições e símbolos nacionais, às autoridades constituídas e ao núcleo familiar”
“Nenhum anúncio deve favorecer ou estimular qualquer espécie de ofensa ou discriminação social, racial, política, religiosa ou de nacionalidade”
