sábado, 23 de janeiro de 2010

Farsa Católica.

Um dia desses assisti a uma matéria, veiculada por um telejornal de grande audiência no país, que merece ponderações. Já acostumada a receber da Igreja Católica declarações públicas cada dia mais constrangedoras, e ditas num tom sempre muito conclusivo, embora ofendida, não reagi com espanto.

O atual pontífice Bento XVI, eleito no ano de 2005, vem sofrendo duras acusações sobre sua omissão em uma série de casos de pedofilia ocorridos dentro da Igreja enquanto ocupava o cargo de Arcebispo de Munique e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no Vaticano. As imprensas alemã e americana estão empenhadas no levantamento de denúncias que comprovem o silêncio do Papa diante dos abusos praticados contra crianças por autoridades da Igreja.

As informações, evidentemente, estão sendo negadas e, à revelia de alguns, a Igreja Católica mantém-se um dos aparelhos de poder mais influentes em nossa sociedade. Embora destituídos de um poder formal, a Igreja nunca deixou de ser um importante instrumento de produção e disseminação de valores. Seus desígnios assumem uma posição de destaque para o controle social e será sempre razão de muita polêmica questionar falhas em seu sistema.

Na matéria noticiada ontem pela tevê, o Chefe de Governo do Vaticano, Papa Bento XVI, declarou lamentar cada um dos casos de abuso listados nas investigações e acrescentou um dado bastante curioso: a razão de terem acontecido não foi o celibato dos padres, mas a homossexualidade. Pois bem...

Toda instituição depende de normas e diretrizes para ser funcional, o que equivale a dizer que, para efetuar uma contraposição a qualquer dogma instituído, é necessária uma revisão abrangente em suas bases ideológicas. Antes de questionarmos o veto da Igreja ao uso de métodos contraceptivos, por exemplo, é preciso trazer à pauta o valor reprodutivo do sexo (que ainda vigora na visão Católica). Da mesma forma, antes de atacar a postura neonazista do Papa sobre a questão homossexual, é necessário propor uma reestruturação da cartilha cristã.

Religiões fazem uso de referências supranaturais para dar consistência aos seus desígnios. Nenhuma linhagem real foi eleita democraticamente. A autoridade do Rei era legítima por ser este um enviado de Deus à terra. Me pergunto: por que razão uma república presidencialista “laica” como o Brasil, erguida sob influências étnicas, religiosas e culturais tão diversas, acataria tão veementemente os desígnios de uma autoridade aleatória, que procede apenas historicamente, cujo alcance atinge a mídia, a política e a cultura? O que mais me intriga não são os usos dos discursos impressos no livro sagrado, mas o leitor consciente, que abre mão da autonomia dedutiva por uma reprodução automatizada.

O homem que ocupa o lugar de maior destaque nessa Instituição religiosa é também um chefe de estado, com poderes simbólicos e administrativos. A liberdade com que manifesta e defende a soberania do seu povo é um ato de etnocentrismo grave, que nos alerta para a urgência de uma revisão da laicidade de nosso sistema político. O senso comum é o terreno por onde circulam ideias que preexistem à nossa existência e consciência, levando à marginalização tudo aquilo que não toma como legítimo os imperativos deste modelo secular de conduta.

Me pergunto, retomando a discussão sobre os casos de pedofilia na Igreja: e quanto aos abusos cometidos contra meninas?

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Do que vive o homem?


"Não nos será outorgada a liberdade externa mais do que na medida exata do que tenhamos sabido, num momento determinado, desenvolver nossa liberdade interna."
[Ghandi]

sábado, 9 de janeiro de 2010

Sobre a fragilidade dos laços humanos.


Franz Kafka observou que somos duplamente distintos de Deus. Tendo comido da árvore do bem e do mal, nós nos distinguimos Dele, enquanto o fato de não termos comido da árvore da vida O distingue de nós. Ele (a eternidade, na qual se abraçam todos os seres e seus feitos, em que tudo que pode ser é, e tudo que pode acontecer acontece) está próximo de nós. Fadado a permanecer secreto – eternamente além de nossa compreensão. Mas sabemos disso, o que não nos permite ter sossego. Desde a fracassada tentativa de erigir a Torre de Babel, não podemos deixar de tentar e errar e fracassar e tentar novamente.

 Tentar o quê? Rejeitar essa distinção, rejeitar a negação do direito aos frutos da árvore da vida. Prosseguir tentando e fracassar nas tentativas é humano, demasiadamente humano. Se a alteridade é, segundo Levinas, o derradeiro mistério, o absolutamente desconhecido e o totalmente impenetrável, isso não pode ser uma ofensa e um desafio – precisamente por ser divino: barrando o acesso, negando o ingresso, inatingível e eternamente além do nosso alcance. Mas (como Rozenberg insiste em nos lembrar) "o ilimitado pode ser alcançado por meio da organização. As coisas mais elevadas não podem ser planejadas. Imediatez é tudo para elas".

Imediatez para quê? "O discurso é amarrado ao tempo e por ele nutrido... Não sabe de antemão onde vai terminar. Segue o exemplo de outros. De fato, vive em virtude da vida de outro... Na conversa real, alguma coisa acontece." Rozenzweig explica quem é esse "outro", por cuja vida vive o discurso de modo a que alguma coisa possa acontecer na conversa: esse outro "é sempre um alguém bem definido" que não tem "apenas ouvidos, como ‘todo o mundo’, mas também uma boca".

 É exatamente isso que faz o amor: destaca um outro de "todo o mundo", e por meio desse ato remodela "um" outro transformando-o num "alguém bem definido", dotado de uma boca que se pode ouvir e com quem é possível conversar de modo a que alguma coisa seja capaz de acontecer.

E o que seria essa "alguma coisa"? Amar significa manter a resposta pendente ou evitar fazer a pergunta. Transformar um outro num alguém definido significa tornar indefinido o futuro. Concordar com uma vida vivida, da concepção ao desaparecimento, no único local reservado aos seres humanos: aquela vaga extensão entre a finitude de seus feitos e a infinidade de seus objetivos e conseqüências.


Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos - Zygmunt Bauman.

 

Trajes.

"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formamos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida."
Fernando Pessoa.


Para o romantismo extremo, não há exatamente “o” ser amado. Aquela criatura dotada de uma aura singular, da qual desejamos asseio e encanto e de quem esperamos o retorno de nossas projeções. Há um ser humano, falho e incompleto, sobre o qual, de maneira arrogante, cobrimos o corpo para fazer dele um escopo de nossa ilusão de amante, por temermos a aparência ou não darmos crédito à validade de sua própria natureza. Envelhecer sem exercitar a generosidade, a tolerância, a renúncia às próprias convicções em prol de algo maior é assumir o fracasso de não ter-se doado verdadeiramente. A espera é dolorosa e não há remédio senão a presença. Fernando Pessoa fala do amor romântico como um traje, com o qual vestimos o ser amado para dar a ele a forma ideal do nosso amor. Mas, sem surpresas, a cada um cabe um molde, que precisamos ajustar de tempos em tempos, conforme nos abrimos às mudanças.

O tempo é um grande mistério. Qual a referência da espera? Talvez o próprio amor ou, melhor dizendo, a durabilidade do traje. Quando este se esfacela, segundo Pessoa, surge o corpo real. E nem sempre é aprazível o que vemos desnudo, afinal, reservamos aos bastidores toda a intimidade que não tivemos tempo para retocar.

Mas o amor é o mais legítimo dos sentimentos. Aquele que muito suporta, muito pondera e muito espera. Aquela pulsão que faz com que duas pessoas se disponham e renunciem. O termo romântico, tal como foi concebido pela estética oitocentista, pressupõe um tipo de amor que se põe à prova sem exigir retorno. Um amor que contempla omisso e que é pleno da existência do ser amado, sem esperar dele conhecimento ou reciprocidade. Deste, o literário, pouco sobrevive. É o amor idealizado, solitário, voltado para si e que jamais filará concretude, pois é o avesso da objetividade.

Será, então, possível conceber o amor sem os trajes? Poderia a criatura amada resguardar em si toda a beleza para a qual cerramos os olhos, burlados pelos ideais que, por hábito, forjamos para tentar torná-la mais próxima do nosso desejo? Seria um amor sem provas? Exigiria maior coragem, certamente. E um acordo arriscado entre pares que se reconheçam e acreditem que desta entrega retornem criaturas modificadas. Para que funcione o proposto, precisariam saber-se incomuns diante do resto. Exige que administrem os medos e as vaidades para revelarem-se ao outro. É preciso desprendimento. Estar pronto para isso é entender, inclusive, que o tempo é um grande equívoco, já que amor não comportará a intransigência. Enfeitar alegorias mortas é dispensar o novo, fechar-se em si, retornando ao platonismo do amor singular. E o que há de mais ultrapassado que o passado?