Um dia desses assisti a uma matéria, veiculada por um telejornal de grande audiência no país, que merece ponderações. Já acostumada a receber da Igreja Católica declarações públicas cada dia mais constrangedoras, e ditas num tom sempre muito conclusivo, embora ofendida, não reagi com espanto.
O atual pontífice Bento XVI, eleito no ano de 2005, vem sofrendo duras acusações sobre sua omissão em uma série de casos de pedofilia ocorridos dentro da Igreja enquanto ocupava o cargo de Arcebispo de Munique e prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé no Vaticano. As imprensas alemã e americana estão empenhadas no levantamento de denúncias que comprovem o silêncio do Papa diante dos abusos praticados contra crianças por autoridades da Igreja.
As informações, evidentemente, estão sendo negadas e, à revelia de alguns, a Igreja Católica mantém-se um dos aparelhos de poder mais influentes em nossa sociedade. Embora destituídos de um poder formal, a Igreja nunca deixou de ser um importante instrumento de produção e disseminação de valores. Seus desígnios assumem uma posição de destaque para o controle social e será sempre razão de muita polêmica questionar falhas em seu sistema.
Na matéria noticiada ontem pela tevê, o Chefe de Governo do Vaticano, Papa Bento XVI, declarou lamentar cada um dos casos de abuso listados nas investigações e acrescentou um dado bastante curioso: a razão de terem acontecido não foi o celibato dos padres, mas a homossexualidade. Pois bem...
Toda instituição depende de normas e diretrizes para ser funcional, o que equivale a dizer que, para efetuar uma contraposição a qualquer dogma instituído, é necessária uma revisão abrangente em suas bases ideológicas. Antes de questionarmos o veto da Igreja ao uso de métodos contraceptivos, por exemplo, é preciso trazer à pauta o valor reprodutivo do sexo (que ainda vigora na visão Católica). Da mesma forma, antes de atacar a postura neonazista do Papa sobre a questão homossexual, é necessário propor uma reestruturação da cartilha cristã.
Religiões fazem uso de referências supranaturais para dar consistência aos seus desígnios. Nenhuma linhagem real foi eleita democraticamente. A autoridade do Rei era legítima por ser este um enviado de Deus à terra. Me pergunto: por que razão uma república presidencialista “laica” como o Brasil, erguida sob influências étnicas, religiosas e culturais tão diversas, acataria tão veementemente os desígnios de uma autoridade aleatória, que procede apenas historicamente, cujo alcance atinge a mídia, a política e a cultura? O que mais me intriga não são os usos dos discursos impressos no livro sagrado, mas o leitor consciente, que abre mão da autonomia dedutiva por uma reprodução automatizada.
O homem que ocupa o lugar de maior destaque nessa Instituição religiosa é também um chefe de estado, com poderes simbólicos e administrativos. A liberdade com que manifesta e defende a soberania do seu povo é um ato de etnocentrismo grave, que nos alerta para a urgência de uma revisão da laicidade de nosso sistema político. O senso comum é o terreno por onde circulam ideias que preexistem à nossa existência e consciência, levando à marginalização tudo aquilo que não toma como legítimo os imperativos deste modelo secular de conduta.
Me pergunto, retomando a discussão sobre os casos de pedofilia na Igreja: e quanto aos abusos cometidos contra meninas?

