sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Sujeito-papel.
Como integrante de uma geração que aprendeu a produzir e se relacionar, ao menos parcialmente, com o auxílio de algum suporte tecnológico, soa quase criminoso assumir que ainda acredito que o livro não será substituído pelos e-books, que a arte não foi morta pelos abstracionistas, que a gentileza não sucumbiu ao individualismo etc.Estou escrevendo esse post em uma folha de papel A4, com uma caneta bic (a melhor que existe). Embora tenha diminuído a frequência com que faço isso, adoro escrever cartas à mão. Deletar, copiar e colar são sem dúvidas praticidades muito bem vindas, mas também incentivos a que abdiquemos dos prazeres e recompensas dos velhos métodos de escrita. Sou absolutamente adepta aos programas de edição de textos, especialmente para fins acadêmicos, mas ainda acredito na interação sujeito-papel. Tecnologia demais produz mentes fragmentadas e histéricas.
domingo, 27 de setembro de 2009
Laissez faire.

É sempre muito gostoso reencontrar pessoas queridas.
Ontem tive a oportunidade de rever velhas amigas e uma pessoinha muito especial. Gostoso estar diante de velhos hábitos, velhos sentimentos e perceber que a dor nos faz amadurecer. Que existe uma pulsão atuando sobre o desenrolar dos fatos. Por mais que a gente resista e insista em acreditar que tem a última palavra, há sempre uma força que te reconduz. É claro que isso não vale para tudo, porque é importante também requerer a responsabilidade pelas portas abertas e pelos riscos que assumimos a cada escolha. A verdade é que viver é um permanente exercício de sujeição. O tempo realmente desloca o nosso olhar sobre as coisas, mas é preciosa a experiência de encontrar intactas algumas sensações e provas. É "humanizante". Nos faz resgatar crenças, sem as quais nos tornamos um tanto amargos.
Arrogante pensar em controle. Acredito em intervenções de outra natureza. Sempre que me ponho atenta, me deparo com uma peça a mais se encaixando.
Não existe convicção ou teimosia que altere um fato reincidente. Ele, em sua forma e potência, não concebe vulnerabilidade circunstancial.
quinta-feira, 17 de setembro de 2009
Kew Gardens.

"'Mas por que importaria, Simon? Não pensamos todos nós no passado, num jardim com homens e mulheres sob as árvores? Não são eles o nosso próprio passado, tudo o que resta dele, esses homens e mulheres, esses fantasmas que jazem sob as árvores... nossa felicidade, nossa realidade?'
'Para mim, uma fivela de sapato, quadrada e prateada, e um louva-a-deus...'
'Para mim, um beijo. Imagine seis mocinhas sentadas diante de seus cavaletes, há vinte anos, na beira de um lago, pintando nenúfares, os primeiros nenúfares vermelhos que eu via. E de repente um beijo, bem na minha nuca. Não pude mais pintar, porque fiquei a tarde toda com a mão tremendo. Peguei meu relógio e marquei a hora em que me permitiria pensar no beijo por somente cinco minutos - era tão precioso'"[...]
Wirgínia Wolf - Kew Gardens.
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Do tamanho da paz.

CASA NO CAMPO
(Zé Rodrix/Tavito)
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar do tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes no meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão a pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Trânsito vs TPM.
Como não poderia deixar de ser, o trânsito em Teresópolis é tão insuportavelmente irritante quanto o de qualquer outra cidade com mais de 150 mil habitantes - com o agravante de, aqui, não rivalizarmos apenas com outros motoristas, mas, em especial, com os pedestres. É inacreditável a ousadia da maioria. Não existe na Serra aquela política de boa vizinhança, a velha gentileza de pararmos o carro para as senhorinhas simpáticas e grávidas atravessarem as ruas na faixa. As pessoas ignoram a velocidade do seu veículo e se atiram à rua pelo pressuposto óbvio (para mentes teresopolitanas) de que você vai frear ou atirar seu carro no poste para que ela conclua seu trajeto sem transtornos. E sequer aceleram o passo. Pelo contrário! Suspeito de que haja algum tipo perverso de prazer em te fazer aguardar possesso até que ponham os pés do outro lado da calçada. É revoltante para não nativos, como eu. É batata! Experimente estacionar o carro e conte quantas pessoas passarão à frente e por trás dele antes que termine o último movimento com o volante. Eles se regozijam da nossa ira.Introdução feita, hoje me aconteceu algo bastante curioso. Na verdade, não fosse a minha busca constante por equilíbrio, o fim poderia ter sido bem trágico. Já passava das 21h quando decidi que iria até a padaria, a algumas quadras do meu prédio. Pois bem... Ao fazer um retorno, seguia em direção ao meu destino quando passo por um trecho sem iluminação e onde havia uma faixa. Apenas a faixa, observem. Sem sinalização eletrônica, indicando apenas ser aquele um local mais adequado para a travessia de pedestres. O comércio, pela hora, naturalmente, estava fechado. Fiz o meu retorno feliz e contente quando (adivinhem?) vejo já a no máximo 3 metros da faixa (portanto, distância fisicamente desaconselhável para acionar o freio) três típicos pedestres teresopolitanos aproximando-se da rua. Penso eu, em fração de segundos, “eles vão se apressar ou voltar”. É evidente que, considerando o cenário, pisar abruptamente no freio não seria a opção mais sensata. Seria gentileza demais (que, inclusive, gosto de fazer durante o dia e quando as pessoas aguardam por isso nas calçadas).
Adiantando o final da prosa, não houve feridos. Eles atravessaram sem a devida precaução, mas, milagrosamente, consegui passar entre os três, ouvindo à distância alguns maus chingamentos. Segui meu caminho, ainda perplexa e assustada, estacionei e comprei os pães. Retomando o caminho de casa, percebo um farol muito alto atrás de mim, que me seguia. Eis que à esquerda me aparece uma figura sinistra, como se um espírito sem luz tivesse se apossado dela, me fazendo apontamentos e esbravejando. Eu não entendi muito bem, mas logo supus que fosse uma das pedestres suicidas. Pois bem. Este carro me seguiu até bem perto da minha rua, quando decidi improvisar um trajeto. Seria imprudência permitir que uma desconhecida descompassada soubesse onde moro. A mulher, então, continuou gritando da janela, enquanto meus vidros estavam seguramente fechados, com o marido ao volante (um banana, por sinal), enquanto eu tentava despistá-los. Quando sentiu que conseguiria me alcançar (tive que desacelerar num desses redutores de velocidade), a mulher desceu do carro descontrolada. Naturalmente, ficou ainda mais quando se deu conta de que meu carro continuou andando. Ficou no meio da rua, feito uma louca, gritando aos ventos. Nesse momento, confesso que conheci um lado bem cruel da minha natureza... Entrei em uma rua próxima, ainda na tentativa de evitar que o pior acontecesse, mas, para a minha infelicidade, fui surpreendida por um sinal vermelho, onde fui moralmente coagida a parar. E não é que o casal ensandecido me encontrou?! Decidi, então, abrir o vidro para tentar dialogar e dar fim àquela perseguição, que já tinha passado dos limites e começava a me parecer perigosa. Com o carro parado, ela começou a socar o vidro e só não me atingiu em cheio porque segurei seu braço (embora a unha ou um anel tenha tocado o meu rosto, que ficou avermelhado por um tempo).
Ela estava completamente transtornada, tentando me agredir verbal e fisicamente, como se houvesse algum tipo de adendo na legislação de trânsito reservando aos teresopolitanos privilégio sobre os demais pedestres do país. Chega a ser cômico pensar no que acabou de acontecer. E o marido dessa criatura, cuja alma já havia sido consumida pelo capeta, não esboçava nenhuma reação. Apenas assistia e pronunciava, eventualmente, algumas palavras (na certa, envergonhado e com medo do que o aguardaria em casa caso a desautorizasse), tentando fazê-la voltar para o carro. Este tem lugar garantido no céu. Era um frouxo, mas um sujeito civilizado. Me desculpei com ele pelo ocorrido (mesmo sabendo que não havia cometido nenhuma infração e, a essa altura, já lamentando muito não ter atropelado aquela desequilibrada), ouvi mais alguns desaforos e parti com o carro para casa, ainda bastante indignada. O pior de tudo era saber que eu ainda teria que lidar com a frustração por não ter-lhe retribuído as bordoadas (mesmo sendo nulas as possibilidades de algo semelhante acontecer). Mas foi melhor assim. Certamente, agi com prudência. E tive sorte por estar sozinha. A noite não teria terminado ali se eu estivesse acompanhada por quem ficou em casa por preguiça. Santa racionalidade! E santo IPVA atrasado, que me acalmou ainda mais os ânimos. Suprimi a zero minha TPM! Estou frustrada e ainda bastante irritada, mas orgulhosa por ter passado bem por esse teste de autocontrole.
Mas que a fdpzinha merecia uns tapas de alguém... ah, merecia!
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