"O amor romântico é como um traje, que, como não é eterno, dura tanto quanto dura; e, em breve, sob a veste do ideal que formamos, que se esfacela, surge o corpo real da pessoa humana, em que o vestimos. O amor romântico, portanto, é um caminho de desilusão. Só o não é quando a desilusão, aceite desde o princípio, decide variar de ideal constantemente, tecer constantemente, nas oficinas da alma, novos trajes, com que constantemente se renove o aspecto da criatura, por eles vestida."
Fernando Pessoa.
Para o romantismo extremo, não há exatamente “o” ser amado. Aquela criatura dotada de uma aura singular, da qual desejamos asseio e encanto e de quem esperamos o retorno de nossas projeções. Há um ser humano, falho e incompleto, sobre o qual, de maneira arrogante, cobrimos o corpo para fazer dele um escopo de nossa ilusão de amante, por temermos a aparência ou não darmos crédito à validade de sua própria natureza. Envelhecer sem exercitar a generosidade, a tolerância, a renúncia às próprias convicções em prol de algo maior é assumir o fracasso de não ter-se doado verdadeiramente. A espera é dolorosa e não há remédio senão a presença. Fernando Pessoa fala do amor romântico como um traje, com o qual vestimos o ser amado para dar a ele a forma ideal do nosso amor. Mas, sem surpresas, a cada um cabe um molde, que precisamos ajustar de tempos em tempos, conforme nos abrimos às mudanças.
O tempo é um grande mistério. Qual a referência da espera? Talvez o próprio amor ou, melhor dizendo, a durabilidade do traje. Quando este se esfacela, segundo Pessoa, surge o corpo real. E nem sempre é aprazível o que vemos desnudo, afinal, reservamos aos bastidores toda a intimidade que não tivemos tempo para retocar.
Mas o amor é o mais legítimo dos sentimentos. Aquele que muito suporta, muito pondera e muito espera. Aquela pulsão que faz com que duas pessoas se disponham e renunciem. O termo romântico, tal como foi concebido pela estética oitocentista, pressupõe um tipo de amor que se põe à prova sem exigir retorno. Um amor que contempla omisso e que é pleno da existência do ser amado, sem esperar dele conhecimento ou reciprocidade. Deste, o literário, pouco sobrevive. É o amor idealizado, solitário, voltado para si e que jamais filará concretude, pois é o avesso da objetividade.
Será, então, possível conceber o amor sem os trajes? Poderia a criatura amada resguardar em si toda a beleza para a qual cerramos os olhos, burlados pelos ideais que, por hábito, forjamos para tentar torná-la mais próxima do nosso desejo? Seria um amor sem provas? Exigiria maior coragem, certamente. E um acordo arriscado entre pares que se reconheçam e acreditem que desta entrega retornem criaturas modificadas. Para que funcione o proposto, precisariam saber-se incomuns diante do resto. Exige que administrem os medos e as vaidades para revelarem-se ao outro. É preciso desprendimento. Estar pronto para isso é entender, inclusive, que o tempo é um grande equívoco, já que amor não comportará a intransigência. Enfeitar alegorias mortas é dispensar o novo, fechar-se em si, retornando ao platonismo do amor singular. E o que há de mais ultrapassado que o passado?

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